Lua: Morango de Carne

Edigles Guedes

Lago de cisnes, que boiam suas ilusões;
Branca de neve na agônica noite!…
Lagoa de namorados com profusões
De ósculos helmintos, belipontentes!…

Laço a jato jungindo dois corações
Em longo enlace de flores e espinhos!…
Louco boião de seda… ambas as adições
De corpos cálidos em calmos ninhos!…

Xampu de coco a escorrer em madeixas
Femininas com águas comburidas!…
Caleidoscópio com jejum de ameixa;

Famélico morango de carne e só!…
Lua que me lembra pernas coloridas
Da mulher que amei. Estou de mim defesso!…

3-4-2010.

Amor em Quadrinhos

Edigles Guedes

Ah! mulher dos meus ais (suspiros delirantes!), frente
A frente com minha nudez de segundos precários!…
Eu, pasmado com tuas mãos lascivas!… As bendizentes
Mãos de Mulher Maravilha, esse corpo locatário!…

Suaves são os pés de gazela alencariana, em romance
De horas tórridas!… Lucíola, de pernas escarlatas,
Escalando a montanha de meu peito nu, sem chance
De reação!… Teus olhos de Mulher Gato: escandalosos

Olhos que miram em mim a tua face de acrobata
No circo ou círculo de teus seios lanosos, xistosos!…
Assinatura de sangue e dor no meu peito amante;

Eis a marca que deixas em meu coração barrancoso!…
Nas páginas amarelas de histórias em arfantes
Quadrinhos, eu vou bosquejando dissabor desbrioso!…

3-4-2010.

Coração Cronista

Edigles Guedes

Coração que cora comigo consútil,
Cozido em caldeirão contrito; caminho
Casto por cônsul civil; cachorro em covil
Civilizado; canário com carinho!…

Chapeuzinho ciente do crápula cioso;
Consciência calva das chicotadas chochas;
Canivete camacho, caliginoso;
Cálamo em cano; cana conchuda, concha;

Corvo carnívoro em cães carnificinas;
Ciência calma de cãs culminantes; calo
Cético em celeste cobra cabralina;

Ciúme da correspondência em cisma cripta.
De chofre, cor de caldo criptocéfalo
Caiu o coração como cálido cronista!…

3-4-2010.

Fado Algoz

Edigles Guedes

Carrasco do lodo de sentimentos,
Condoídos em coração abandonado;
Algoz da lama putrefata — atentos
Olhos de rapina em pássaro. Fado

Esse que carrego comigo — dentes
De leão a rugir sirtes, voo de águia alpina
Por montanhas alvissareiras, fontes
D’água a jorrar para a feérica sina!…

Fado: sequestrador impertinente
Das sem-razões de coração amoroso.
Vem, cruento amigo! destilar albente

Fel em minh’alma peregrina, ausente
Do mundo que a cerca! Que doloroso
É sofrer por uma mulher envolvente!…

2-4-2010.

Palavras a Sete Chaves

Edigles Guedes

Palavras, que você sussurrou em meu ouvido,
Ainda estão guardadas lá dentro do peito,
Trancadas a sete chaves no acérido
Cofre do coração. Palavras, sem jeito,

Voam ao imo da gente e inflamam a centelha
De Amor entorpecido, que acorda em fúria
De furacão, arrasando as casas, as telhas
Vãs, edifícios de agruras catenárias:

Tudo vai para o espaço! Quando palavras
Atiçam chamas de Amor benfazejo. Quão
Pequeno é o dicionário de minha lavra

Para exprimir o bonde — cio de desejos!
Portanto, tuas palavras deixavam-me tão
Excitado quanto a palidez de um beijo!…

1-4-2010.

Álacre Amor Partiu

Edigles Guedes

Que ênfase nas pálpebras de onça pintada!
Num franzir de sobrolhos, aquela mulher
Pegou do trem do meio-dia, sem dizer nada,
Partiu; deixando-me uma carta pra colher

Navios, que passam em brancas nuvens. Carta
Escreveu-me ela, com sua bem caprichada
Caligrafia — frágil como rosa —, farta
De desleixação minha, que era fachada

O Amor que deveras existia. Ela não me
Disse adeus, simplesmente partiu; sem dizer
Um ai ou um ui, tão somente fugiu. Escapou-me

Feito pomba arredia. Não vá, meu álacre Amor!
As pálpebras dos minutos estão a coser
O tempo de hoje; o amanhã é fugaz como flor!…

1-4-2010.

Amor sem Alarde

Edigles Guedes

Sem alarde, chega o Amor de mansinho,
Como quem não quer nada, mas querendo
Raptar com esses olhos meu carinho.
Furtivamente, o Amor bate (torcendo

O nariz em sinal de birra) à porta
Do meu coração amante. Se me escondo,
Ele logo descobre o paradeiro
Meu; se me não escondo, meu derradeiro

Amor enxovalha-me e cara torta
Faz para mim. Amor que é marimbondo
De ferrão estrondoso: e arrebenta o fosco

Coração. Por isso, aos teus pés, eu faço
Essa declaração de papel tosco;
Eu torço pra que Amor dure como aço!…

1-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...