Café



Café que sorvo ao gole.
O preto grão cantarole.
Da cor de xis chocolate.
Capaz de pôr disparate

No quengo sóbrio da gente.
Que faz desdém diligente.
Desfaz o choro em riso.
Compraz com ouro sorriso.

Vivaz sentir, regozijo,
Inunda ser a remijo.
Espuma bruna veleja.

O bolo cris e cereja.
A bruma nívea me ferve:
Fumaça rende e serve.

Autor: Edigles Guedes.


Tarde



O cais está semoto.
Os ais me são remotos.
O pátio é deserto,
Que vivo tão de perto!

E nesta hora má,
O pátio não que há;
O peito é que vinga.
Amor, serene! Pinga

Primeira gota. Chuva
Peneira, fina. Luva
Dormita. Luz adentra

Por fresta, gris. Concentra
Na frase:
Fúria cega,
Que tarde não me nega!

Autor: Edigles Guedes.


Copo



Cilindro que vive sua vida à borda
De cútis hilária. Sou precário com torço.
Pugnaz precipício trague luzes, reflexos!
A boca rasgada pague cruzes pesadas!

Combate renhido, bis de justas espadas,
Que chagam os corpos lassos. Nós, os perplexos,
Estamos rendidos. Luz que brilha, contorço.
Cristal caberá, de tão fastoso. Discorda?

O copo que beija mão da mesa, alento
Recebe: seguir avante, vence as fráguas.
A força resiste; pé, que firme, triplica.

Um gelo navega águas cheias de mágoas.
Licor, calejado, geme; trama futrica.
Porém, que facejo:
Tudo tento, sustento.

Autor: Edigles Guedes.


Mesa



Retângulo tenso, firmado no soalho.
Destranca o gáudio, brotado no borralho.
As palmas (que curvas!) me lançam um sorriso.
As pernas entortam, silentes. E reviso

O livro das horas, às quatro da matina.
Candeia luzente, conquanto a buzina
De carro troveja. O livro rumoreja
Agruras e lástimas; sono sacoleja

Vigília; os olhos por triz que desfalece.
A forma: estética gris empalidece.
A mesa me chama; a pálpebra estica.

E eu surpreendo-me:
Chega de peitica!
Amiga belisca; despeço-me da lida.
A mesa, porém, permanece
traduzida.

Autor: Edigles Guedes.


Cadeira



Quadrúpede quedo, capaz de mudez
Assídua. Longínqua, desfruta viuvez.
Em quatro, as pernas embuçam sensato
Espaço, pejado. Fechada (que lindo!)

Sufoca a fala. Produto, que rindo,
Robora sestrosa sequela de chato.
Farol no dilúvio de móveis, que raro
Se mexe de flanco a flanco, deparo.

Espalda que deito o dorso — recosto
Doméstico, colo zeloso. Disposto,
Estudo o livro da liça. Contesto

A luz que alumbra, licença, que preço!
Cadeira deslumbra; presença que meço.
E eu que servi de assento molesto!

Autor: Edigles Guedes.


Cólica



Enquanto dói no homem bruto:
Novela, queima língua, luto.
Mulher difere nisso tudo:
Sagaz, engole dó agudo.

Mavórcia seja, mel, agulha.
Urgente: fogo sem fagulha.
Mulher que é a forte pluma.
— Que vá embora, leve, suma!

Verdade: — Fique, deixe, sigo
Alívio, tocha cesse, figo.
A fúria faz legal contralto.

Ladrido manso, punge salto?
Desata pranto, mil ou cem?
Entanto, vence mal com bem.

Autor: Edigles Guedes.


Aniversário



Data ditosa que nasceste.
Anjo, decerto, a trombeta
Toca, anuncia a chegada.
Ente de muitas presepadas.

Prezo o riso que fizeste.
Mão de criança e chupeta
Botam a gente comovido.
Bênção de Pai, o Celestial.

Velas acesas, que sabido!
Batem as palmas, de trivial.
Teus parabéns, os declamados

Versos de quem o descortiça.
Venço a lágrima postiça,
Lábia e consolo demasiados.

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...