Mesa



Retângulo tenso, firmado no soalho.
Destranca o gáudio, brotado no borralho.
As palmas (que curvas!) me lançam um sorriso.
As pernas entortam, silentes. E reviso

O livro das horas, às quatro da matina.
Candeia luzente, conquanto a buzina
De carro troveja. O livro rumoreja
Agruras e lástimas; sono sacoleja

Vigília; os olhos por triz que desfalece.
A forma: estética gris empalidece.
A mesa me chama; a pálpebra estica.

E eu surpreendo-me:
Chega de peitica!
Amiga belisca; despeço-me da lida.
A mesa, porém, permanece
traduzida.

Autor: Edigles Guedes.


Cadeira



Quadrúpede quedo, capaz de mudez
Assídua. Longínqua, desfruta viuvez.
Em quatro, as pernas embuçam sensato
Espaço, pejado. Fechada (que lindo!)

Sufoca a fala. Produto, que rindo,
Robora sestrosa sequela de chato.
Farol no dilúvio de móveis, que raro
Se mexe de flanco a flanco, deparo.

Espalda que deito o dorso — recosto
Doméstico, colo zeloso. Disposto,
Estudo o livro da liça. Contesto

A luz que alumbra, licença, que preço!
Cadeira deslumbra; presença que meço.
E eu que servi de assento molesto!

Autor: Edigles Guedes.


Cólica



Enquanto dói no homem bruto:
Novela, queima língua, luto.
Mulher difere nisso tudo:
Sagaz, engole dó agudo.

Mavórcia seja, mel, agulha.
Urgente: fogo sem fagulha.
Mulher que é a forte pluma.
— Que vá embora, leve, suma!

Verdade: — Fique, deixe, sigo
Alívio, tocha cesse, figo.
A fúria faz legal contralto.

Ladrido manso, punge salto?
Desata pranto, mil ou cem?
Entanto, vence mal com bem.

Autor: Edigles Guedes.


Aniversário



Data ditosa que nasceste.
Anjo, decerto, a trombeta
Toca, anuncia a chegada.
Ente de muitas presepadas.

Prezo o riso que fizeste.
Mão de criança e chupeta
Botam a gente comovido.
Bênção de Pai, o Celestial.

Velas acesas, que sabido!
Batem as palmas, de trivial.
Teus parabéns, os declamados

Versos de quem o descortiça.
Venço a lágrima postiça,
Lábia e consolo demasiados.

Autor: Edigles Guedes.


Não te Deixes Vencer



Quando vires a mim, por obséquio,
Peço: deixa tristonho Pinóquio,
Tão egrégio, seguir descaminho.
Rude, feres alguém que sozinho

Vaga? Ruas de quinas, falácias;
Becos, curtos, de mil peripécias.
Chuto muito tampinhas a esmo.
Nave voga vulgar, ensimesmo.

Gato lufa por essa estrada.
Mocho luta, chirria e brada.
Cão que ladra e pouco que morde.

Eu que nada padeço; de lorde
Ando, queixo vexado, disperso.
Não te deixes vencer por Perverso.

Autor: Edigles Guedes.


Deus



Escape no dia de perigo;
Disparo, mas inda te bendigo.
Benesse me sonda no abismo;
Benefício de que tanto cismo.

A volta por cima surpreende.
O laço liquida. Compreende
Partícula ínfima, vagido.
Acredito por querer sentido.

Socorro no rijo sorvedouro.
A peste que foge na ausência.
O benigno no sofrer: tesouro.

O monte tremula na presença.
Espírito brama na essência.
O bendito no viver: sentença.

Autor: Edigles Guedes.


Cabide



Urubu perneta suporta calças.
As camisas plangem. Vestido realça
Aparência sóbria, de quem dorido
Rumoreja canto de viés cerzido.

No pernoite, surge um homem fino,
Da grossura cruel de palito. Sino,
Que tilinta, gruda em mim sonido.
Um cachorro lambe o alguém, latido.

Urubu contempla vestuário tido
E flexível, custo de suor banido.
Um relógio cuco enxota a hora,

Que escorre, cru. Ampulheta ora,
Desenreda toda volúpia, agora.
Por enquanto, andejo por aí, afora.

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...