Fidalgo



De chamar, cansou-se o nobre coração;
A clamar, ardeu-se a vulgar benevolência;
Por bradar, goelou-se a banal concupiscência;
Por berrar, gelou-se a traquina aspiração.

O fidalgo coração julgou-me insano;
A vergar benevolência, viu-me em pranto;
A zangar concupiscência, foi-se em espanto.
A travessa aspiração rasgou-me o engano.

Que enxugue secas as lágrimas, suspiro!
Que machuque moças as nádegas, aspiro!
Que transite rudos os náufragos, vampiro!

Porque lágrimas restrujam, gôndolas voam?
Porque nádegas retumbem, rótulas troam?
Porque náufragos ribombem, léxicos soam?

Autor: Edigles Guedes.


Peitica



Que peitica tremenda? Por que não me acode?
Que chatice me engendra? Por que não sacode
As venustas cadeiras em trotis pagodes?
Que me venhas, janota, em maciez de bodes!

A peitica esconde! Serenai, sonsinha!
A chatice emperra! Abonançai, sozinha!
As cadeiras ostenta! Mitigai piti!
A largueza de peito um, convém a ti!

Agoureira que crava tórax no cruzeiro.
Escusai a insolência, tolo marombeiro!
Escutai petição solene, marinheiro!

A peitica desata canto no ingazeiro.
A tristeza desaba peito seresteiro.
A saudade rebenta leite de umbuzeiro.

Autor: Edigles Guedes.


Bactérias



As batatas fritas de tuas pernas,
Longilíneas, deitam-me afrontas ternas!
O que digo faz o sentido ou senso
A pular, de galho em galho, feito

O macaco sabe que seu defeito:
Os cambitos — laços demais extensos?
Escapole riso, vivaz pilhéria.
Recriminas; siso, exiges; léria.

Esticar o beiço por bruta birra.
Inflamar o peito de pulcra esfirra.
Desatar o bico de bicho em férias.

O que digo verte linguagem ácida.
O galgar de gata dengosa, plácida.
Destronar as tontas, gentis bactérias!

Autor: Edigles Guedes.


Tonteira



O poema se contorce em linhas agudas.
O doente se comove; espinhas e bulas.
O peixe no aquário: diz que das gulas?
As linhas no papel se vão vagabundas;

Que tecem umas letras gris, navegando
Por entre umas tardes; frios aos montes!
A toalha de penedos foge, defronte
Ao grande condolente, mar tateando.

Um pé de tamarindo pinga as mágoas
De lépidas torneiras. Baldes de águas
Que caem da veraz faceta, chaleira.

Vagir que despedaça berço e menino!
Rebento com perder e dor, desatino!
Quiçá um que destroça nuvens, tonteira!

Autor: Edigles Guedes.


Potó



Potó-pimenta estica as pernas; acrobáticas,
As linhas puxam; ferem agulhas; em ginásticas
Longínquas, saltam tortas; ganas de Arlequim.
Avexa-se nas calças de Polichinelo!

Bichinho papa pó e pútrida pimenta;
Que cospe fogo-fátuo e brusca malagueta;
Que chispa longa estrada e curva no jardim.
Engancha-se nas mangas de um ritornelo!

Fugaz moleque trepa dobras e pescoço:
Horror da carne viva! Corda suspendida…
O pêndulo veleja que no alvoroço!

Aranha tece, volve dráculas de anelos
Por pele grossa ou lisa: sádica bandida!
O sândalo peleja que a contrapelo…

Autor: Edigles Guedes.


Gozo



Ser amado por quem nos ama
É a Dádiva, sim, na cama.
Quando, pálida, Dama calma
Uiva, rosna — delírio em alma!

Amo, macho escravo… Dedo
Méleo e móvel, que prende o medo…
Dentes doem; arregaçam, tredos…
Dentes moem; estragam, ledos…

Pés fenecem, abrolham — lírios
Cantam, brutos, ceitis delírios.
Mãos apalpam, procuram as mãos

Outras, rogam por beijos sãos.
Sou feliz no sentir, Pinóquio.
Gozo; e meço gentil delíquio.

Autor: Edigles Guedes.


Grades de Ti



Debaixo do pé de seriguela
Estavas… Corri para os braços
Da amada… Jungi lábios em laços…
Mudei um humor frustro em estrela.

Contudo, pareces amarela.
Sortuda, estás desanimada.
Que houve, Senhora, magoada?
Que bicho te morde, Tagarela?

— A Sina mudou. Duro fadário
A mim consumiu: fruto e desgosto!
Na tarde do mês belo de agosto,

Partiste; deixaste-me cnidário.
Navego em sol-posto; revivo
As grades de ti, que me cativo!

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...