Amor em Xícara

Edigles Guedes

A anatômica Xícara,
Enxerida que só ela,
Diz que o bom é sorver, pelas
Narinas, a pícara

Fumaça do torto café.
Oh! Xícara assaz rude,
Bruta que nem grosso grude
Para pipa ou cafuné

De mulher tão perfumosa!
Ah! Xícara fogosa,
De cor marrom, cor de barro,

Terra massapé sem cana-
-De-açúcar, quase plana
De Amor esconso e tão raro!

24-8-2011.

Pulcro Senão

Edigles Guedes

Rastros de Amor não deixaste,
Ao pisar na areia movediça
Do meu Coração!… Que preguiça
De alçar-te nos meus guindastes

Braços, e abraçar-te, pueril!…
Pés de lãs são os teus, minha Dama!…
De tão leves, soltos na cama,
Prenderam meu cavalo anil!…

Como Unicórnio que corre
Para os braços de fulva virgem;
Meu Coração, da alta torre

De Amor, despede-se de ti!…
Teu beijo é vértice, vertigem!…
Oh! pulcro senão que parti!…

23-8-2011.

Laço Pardo

Edigles Guedes

Degusta-me como fruto
De teus beijos salientes…
Degusta-me como ardente
Canção de Amor enxuto…

Frustra-me o siso ferido
De apaixonada fera…
Frustra-me pernas de cera
E teu queixo escorrido…

Bailarina és, enquanto sou
Soldado roaz de chumbo…
Se valente em mim ficou

Tão fero de Amor leopardo,
Em ti restou qual cubo:
Coração, laço pardo!…

23-8-2011.

Notícia de Jornal

Edigles Guedes

O que esperar de pensamento fugaz?...
Se a Noite é pequena, mas vasto é pensar!…
Ó Dama! esvai-se na ampulheta, a rodear,
A areia: minúscula, estreita, tão loquaz!...

À medida que escorre vidro na areia,
Deixa-se ruminar contentamento
Por Amor platônico – sentimento
De marinheiro por gástrica sereia!...

De tanto pensar, a Noite acorda
Bastante lânguida e dorme vãmente...
O Enforcado – pendurado na corda –

Servia como notícia roaz de jornal,
Porque ainda se morre docemente
Por pensar em Amor bruto e cordial!...

22-8-2011.

Abelha

Edigles Guedes

Como abespinhada abelha-macha,
Mordes de febres mil o atrevido
Amor seresteiro, que se agacha
Para colher a flor mel adido…

Tu eras malandro ser cifozoário,
Desassossego, cega devoção…
Tu eras brevíssimo corolário,
Que não deitava sua demonstração:

Caravela nau sem astrolábio;
Sobrevoo de sopa sem moscardo;
Caduquice de velho coroca…

É mister aprender com os sábios,
Já que dizia popular brocardo:
Cochilou, o cachimbo cai da boca!…

21-8-2011.

Despedida de Outono

Edigles Guedes

O Vento assoviava navalhamente…
As Folhas farfalhavam sorrateiras,
Bailavam moles Boleros de Ravel,
Ciscavam a Lua e as estrelas belas…

O Outono incendeia cores fluorescentes
Na Floresta de ferro, derradeira,
Aço e concreto… Bênção inestimável
De circuitos integrados, e ruelas,

E válvulas, e porcas mecânicas,
E biônicas mãos com sua tecnologia…
Que mundo de peças eletrônicas

E aparelhos eletrodomésticos
Criamos!… Enquanto pássaros, em orgia
Acústica, despendem-se, acrósticos…

21-8-2011.

Esquizofrenia de Açoite

Edigles Guedes

Restou-me o fel, com água e sal…
Meus olhos (quão cabisbaixos)
Lacrimejam peixe abissal,
Que sorri dos contrabaixos,

E rabecões, e violinos…
Quebrou-se a flauta, tão doce
Voz melosa, timbre fino,
Retórica de simploce,

Música endógena, sonho
Em sons flutuantes… Drapejam
As bandeiras dos pidonhos

Amanheceres, que almejam
Viver a insônia sem noite…
Oh! esquizofrenia de açoite!…

20-8-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...