Telefone Toca

Edigles Guedes

Telefone toca. Eu, prontamente,
Atendo - esperançoso de meu Amor!
Infelizmente, não é essa demente
Mulher que me apaixonei! Aquela flor

Esquecida no jardim... Macieira,
Que encanta meu coração pedante!...
Ah! Como eu sou essa boa cafeteira
Mergulhada na mesa carente

De manhã. Pois ela não quer saber
Da dor alheia, somente quer sofrer
A dor do bule quente de café!...

Telefone toca. Já a esperança
Se vai... Sonho que é ela... Minha herança
É essa sina que há em mim, de fé em fé.

7-4-2010.

Solo da Paixão

Edigles Guedes

Estou atreito com esse claustro; é certo
Que cedo ou tarde o meu Amor vai deambular
Por aqui. Aguenta só um pouco!… Decerto,
O Amor não tarda; e se adiar, não é de burlar

As leis do torcedor fiel da boa poesia!…
Preste atenção, o Amor é jogo da velha:
Ninguém perde, e ninguém ganha. Afronésia
De minhas faculdades teatrais. Telha

Vã, que caiu do telhado do meu juízo —
É assim o amor. Abscônsia alma, deveras,
Sabes que batalha naval, prejuízo

De meus parcos recursos — é o Amor. Solo
Da paixão incrustada em mim, como vera
Criança sem vê no aniversário o bolo!…

6-4-2010.

Endereço do Coração

Edigles Guedes

Qual o endereço do meu coração?
É necessário um discurso franco
Com ele. Desenxavido, loução,
Meu coração — foge a saltimbanco

Da palavra cruzada do terno
Amor. Corre pra longe do falso
Amor. Ele não te entende!… Inverno
De dura geada, ele é. Cadafalso

Para os teus pés célebres — é o dito
Amor. Se conselho fosse bom, não
Se dava, vendia-se na quermesse

Da esquina. Mas, eu dou-te, contrito
Coração! É que não quero errar; senão,
O Fulano sofrer que se apresse!…

6-4-2010.

Teu Corpo em Flores

Edigles Guedes

Inalo as flores da estufa e rendo-me
Ao teu cheiro de mulher carótida!…
Rosas são as tuas mãos: peixes em cardume
No meu aquário em mim, das horas grávidas!…

Boninas são as tuas pernas estrábicas,
Eis que malmequeres ou bem-me-queres!…
Margaridas são coxas auléticas
Tuas, em sussurro de suave cárcere!…

Cravos — escravos de Jó — são espáduas
Tuas, na manha de gatinha sedosa!…
Girassóis são tuas vergonhas divíduas,

Com odor de lírio sério, campestre!…
Teu corpo recende de mulher ciosa
A alfazema… Que você me sequestre!…

6-4-2010.

Que Malsim!...

Edigles Guedes

Eu sei: tu não tens contigo a tulipa,
Que te dei. Sinceramente, jogasses
Fora as seis pétalas tolas, sem aspas
Nas entrelinhas sonsas. Que benesse

Trouxeste para minha vida? A não ser
Esses meu pesar de mosca meio morta,
Meio lisa; ou talvez aquele adolescer
De gangrena aberta por ruas tão tortas

Da minh’alma de escafandrista. Estou alheio
Às ondas do mar; estou no escomunal
Navio do tempo presente. Eis que folheio

Um livro para distrair-me; porém, sim,
Persiste em meus pensamentos toda nau
De lembranças da tulipa. Que malsim!…

6-4-2010.

Doce Cafuné

Edigles Guedes

Tu és o ovo de chocolate com Páscoa
De recheio, meu benzinho. Que sereno
É este, que assopra seu fulgor?… Como ecoa
No coração zabumba o seu odor lhano!…

Eu sou manteiga derretida pelo
Charme de mulher bandida. Elegância
De ombros desconjuntados, banguelos;
Bala de prata co’aquela fragrância

De veneno. Mulher de sapato alto:
É um perigo de ascensorista — fatal…
Tu és meu brinquedo esquecido, em contralto

De estupendo coral de estrelas murchas!…
Tu estás soprano em corpo continental —
Doce cafuné!… Anjo, que me avalancha!…

6-4-2010.

Teu Retrato

Edigles Guedes

Teu retrato, tatuado no meu peito,
É sinal inequívoco de paixão
Surda, dentro da caixa de defeitos
Dos meus pensamentos em circunflexão…

Teu retrato (enlaçando-me a mim pelo
Peito) faz-me feliz no mudo aspecto
De teu beijo vagabundo. Eu que anelo
Por tua lua em loas lúbricas… Circunspecto,

Devoro o esmalte de tuas unhas — fera
A ferir-me de desejos, encantos
De porcelana chinesa. Pantera

De fêmea faceira, atada ao retrato
Da figura, sem sobressalto, de Amor
Fovente. Ó mulher, mercê de destemor!…

6-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...